A doçura de Carpinejar

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Fabrício Carpinejar é um poeta e jornalista, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS. nascido em Caxias do Sul (RS) aos 23 de outubro de 1972. Filho de Carlos Nejar e Maria Carpi, decidiu pelo junção do sobrenome quando lançou seu primeiro livro “As solas do sol”, em 1998.

Tem vinte livros publicados e você pode conferir sua bibliografia aqui. Tem também dezesseis prêmios recebidos. Hoje ele apresenta o programa “A Máquina” na TV Gazeta e é colunista no jornal Zero Hora.

Gosto dos poemas e textos do Carpinejar pois ele escreve com uma leveza que passa para o leitor e até a dor se torna mais bonita. Quando ele fala de amor, o mais marcante é a simplicidade e o enfoque que dá aos pequenos detalhes que quando lendo, se percebe que foi aquilo mesmo que ele sentiu.

Fiquei muito na dúvida de qual texto colocar , então decidi postar algumas frases e um texto que mostra bem o quão detalhista ele é.

“O mundo não é limitado, reduzimos o mundo pela preguiça de enxergar.”

“Temos a ilusória sensação de que estamos certos. Mas o certo é nunca usar o poder ou a superioridade para impor uma perspectiva. Só ganha no amor quem não quer ganhar.”

“Não há defeito mais irritante do que criticar todo tempo os defeitos dos outros.”

“Adeus, meu amor, logo nos desconheceremos. Mudaremos os cabelos, amansaremos as feições, apagarei seus gostos e suas músicas. Vamos envelhecer pelas mãos. Não andarei segurando os bolsos de trás de suas calças. Tropeçarei sozinho em meus suspiros, procurando me equilibrar perto das paredes.

Esquecerei suas taras, suas vontades, os segredos de família. Riscarei o nosso trajeto do mapa. Farei amizade com seus inimigos. Sua bolsa não se derramará sobre a cadeira. Não poderei me gabar da rapidez em abrir seu sutiã. Vou tirar a barba, falar mais baixo, fazer sinal da cruz ao passar por igrejas e cemitérios. Passarei em branco pelos aniversários de meus pais, já que sempre me avisava. O mar cobrirá o desenho das quadras no inverno. As pombas sentirão mais fome nas praças. Perderei a seqüência de sua manhã – você colocava os brincos por último.

Meus dias serão mais curtos sem seus ouvidos. Não acharei minha esperança nas gavetas das meias. Seus dentes estarão mais colados, mais trincados, menos soltos pela língua. Ficarei com raiva de seu conformismo. Perderei o tempo de sua risada. A dor será uma amizade fiel e estranha. Não perceberei seus quilos a mais, seus quilos a menos, sua vontade de nadar na cama ao se espreguiçar. Vou cumprimentá-la com as sobrancelhas e não terei apetite para dizer coisa alguma. Não olharei para trás, para não prometer a volta. Não olharei para os lados, para não ameaçá-la com a dúvida.

Adeus, meu amor, a vida não nos pretende eternos. Haverá a sensação de residir numa cidade extinta, de cuidar dos escombros para levantar a nova casa. Adeus, meu amor. Não faremos mais briga em supermercado, nem festa ao comprar um livro. Não puxaremos assunto com os garçons. Não receberemos elogios de estranhos sobre nossas afinidades. Não tocaremos os pés de madrugada. Não tocaremos os braços nos filmes. Não trocaremos de lado ao acordar. Não dividiremos o jornal em cadernos. Não olharemos as vitrines em busca de presentes. O celular permanecerá desligado. Nunca descobriremos ao certo o que nos impediu, quem desistiu primeiro, quem não teve paciência de compreender. Só os ossos têm paciência, meu amor, não a carne, com ânsias de se completar. Não encontrará vestígios de minha passagem no futuro. Abandonará de repente meu telefone. Na primeira recaída, procurará o número na agenda. Não estava em sua agenda. Não se anota amores na agenda. Na segunda recaída, perguntará o que faço aos conhecidos. As demais recaídas serão como soluços depois de tomar muita água. Adeus, meu amor. Terá filhos com outros homens. Terá insônia com outros homens. Desviará de assunto ao escutar meu nome. Adeus, meu amor.”

 

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A diva do Divã

Nascida em 20 de agosto de 1961, em Porto Alegre, filha de José Bernardo Barreto de Medeiros e Isabel Mattos de Medeiros,  Martha Medeiros é jornalista e escritora. Se formou na PUC-RS em 1982, casou-se com o publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas.

Trabalhava com Publicidade e Propaganda, mas não estava contente com a carreira. Viu uma ótima oportunidade para dar um tempo da carreira quando seu marido recebeu uma oferta de trabalho no Chile. Passou este tempo fora do Brasil escrevendo poesias, o que a fez abrir os olhos para o seu dom. Voltou para Porta Alegre e começou a escrever crônicas para o jornal, a partir dai não parou mais.

Hoje, aos 49 anos, ela é é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro. Tem 20 obras publicadas, uma delas, Divã, que virou peça, filme e depois série de Tv, todos eles estrelados pela atriz Lilia Cabral.

Vou compartilhar uma de minhas crônicas favoritas de Martha, espero que gostem!

A DOR QUE DÓI MAIS

“Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.”