A diva do Divã

Nascida em 20 de agosto de 1961, em Porto Alegre, filha de José Bernardo Barreto de Medeiros e Isabel Mattos de Medeiros,  Martha Medeiros é jornalista e escritora. Se formou na PUC-RS em 1982, casou-se com o publicitário Luiz Telmo de Oliveira Ramos e tem duas filhas.

Trabalhava com Publicidade e Propaganda, mas não estava contente com a carreira. Viu uma ótima oportunidade para dar um tempo da carreira quando seu marido recebeu uma oferta de trabalho no Chile. Passou este tempo fora do Brasil escrevendo poesias, o que a fez abrir os olhos para o seu dom. Voltou para Porta Alegre e começou a escrever crônicas para o jornal, a partir dai não parou mais.

Hoje, aos 49 anos, ela é é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro. Tem 20 obras publicadas, uma delas, Divã, que virou peça, filme e depois série de Tv, todos eles estrelados pela atriz Lilia Cabral.

Vou compartilhar uma de minhas crônicas favoritas de Martha, espero que gostem!

A DOR QUE DÓI MAIS

“Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.”