A acumuladora


Mais uma acumuladora no mundo, apenas isso. Ela não fazia parte daqueles programas bizarros onde o protagonista guarda até a casca do ovo. Era pior, essa doença já estava em um estágio mais avançado.

Acumulava palavras, vontades, sonhos só não conseguia acumular coragem. Dia após dia tais acumulações não cabiam dentro de si, acordava no meio da madrugada perturbada por palavras e por cenas que nunca aconteceriam. Mas ela sabia que não estava sozinha, no apartamento ao lado há aquela que acumula malas que nunca serão usadas. O vizinho da frente acumula filmes que nunca serão assistidos. O porteiro acumula um amor sem direção.

Não há nenhum programa que venha ajudar a jogar fora ou utilizar o que está dentro da nossa personagem, não há fada madrinha ou coisa alguma que irá esvazia-la do inutil e lhe dar coragem de fazer e sonhar. Não há palavras que poderiam expressar uma certa melancolia por ter reprimido a coragem e  deixado a pessoa que mais amou partir sem ao menos dizer uma palavra, sem ao menos dizer que o seu coração estava repleto de amor, amor por ele. E agora ela senta com o porteiro para contar que perdeu sua direção e toda coragem de ir atrás outra vez.

Apenas mais uma caixa a ser guardada no quarto da acumuladora. Apenas mais um medo de sair do comum, afinal quando as pessoas partem é como se automaticamente recebêssemos uma cartilha de regras sobre o que não fazer e nessa cartilha consta “Não siga suas vontades”, então ela acumula, sofre, se enche do vazio e coisas ruins, e agora o que resta são centenas de caixas repletas de vontades e sonhos e um eu te amo engasgado na garganta em busca de uma direção, na direção dele.

Entre nuvens e Sol

Em meio a uma tarde indecisa entre Sol e nuvens percebi que ali estava o reflexo dos meus pensamentos. Eu que tanto clamava por mudança, quando ela chegou às pressas, quis que o tempo parasse. Como sou ingrata com a vida. Como todos, na maioria, são ingratos. Há algum tempo percebo vários olhares saudosistas, clamando por uma época que não volta mais para em alguns anos pedir pelos dias de hoje.

Em meio há tanto nó vendo tantas pessoas, mais do que era habituada, passei a me conhecer um pouco melhor. Conclui que na verdade apenas me encontro em um lar despedaçado, corrigindo, eu sou um lar despedaçado. Não sei mais o que é casa.

Passei um tempo tentando fazer da nova cidade mais parecida com a minha casa mas percebi que assim como os nômades não preciso de um lugar fixo, porém preciso levar quem eu amo comigo, afinal eles são meu lar.

E agora, tenho quartos, cozinhas e salas por ai, em lugares distantes, as vezes nem tanto, mas ainda assim é um espaço vazio, como uma casa  após um tornado onde perde grande parte dos seus cômodos. Porém me veio a memória que logo depois tais casas são reconstruidas, alguma coisa há de mudar, mas acredito que não seja de todo mal.

Tenho que bater o pé e parar de pedir máquinas do tempo ou coisa e tal. Tenho que pedir força e logo coragem para me reconstruir, adicionar alguns novos cômodos e mudar os antigos. Não vai ser fácil ou rápido, felizmente, logo encontrei coragem no olhar de um estranho determinado a devorar o mundo apesar das rugas, estava determinado a pagar o preço da nostalgia para que não ficasse parado no tempo.

Inseparável

Toda a minha vida fui muito apegada a tudo que eu gostava, mas de uma forma que eu precisava ter sempre por perto, sempre a minha vista. Os amigos, sempre mantive bem junto de mim, poucos mas sempre íntimos. Mantinha tão perto porque me era vital, como se longe, não pertencesse mais a minha vida.

Alguns dias atrás olhei ao meu redor e vi que todo o meu círculo de convivência estava a uma distância que eu nunca imaginei e por um pequeno instante me senti infinitamente vazia. Parando depois para analisar, vi que na verdade o que tinha mudado era o contato físico, o que eu achava de suma importância para qualquer relacionamento, mas será que a amizade, a cumplicidade, tudo aquilo que preservei tanto tempo tinha subido em um ônibus e ido embora? De forma alguma. Eu ainda me preocupava e nós ainda partilhávamos quase tudo. Porque afinal, amizade é isso, é se preocupar com a outra pessoa e se esforçar mutuamente para que nunca acabe. Para ser inseparável basta querer, o que é de verdade, nada nesse mundo pode separar.

E a certeza de que é verdadeiro vem quando mesmo com a distância, com o longo tempo sem se ver e com a menor frequência de conversas, há o encontro e percebemos que absolutamente nada mudou.

(Texto dedicado à Julia, Andrezza e João).

Memórias

Definitivamente, terminou. Durante o colegial inteiro a gente sempre espera pelo terceiro e pela formatura, faz planos para faculdade e viagens que poderíamos fazer durante esses três anos de ensino médio. Pois é, chegou o fim. É muito triste saber que todas as lembranças serão apenas lembranças e que as pessoas as quais participaram dessas lembranças, talvez nunca mais as vejamos.

Foi um ano turbulento, para falar a verdade. Muitos dos planos que fiz, não deram certo e o que aprendi foi que não adianta traçarmos um futuro para nós e seguir da nossa maneira, pois a vida é quem mostra para onde vamos e que tem Alguém por trás de tudo isso cuidando de nós para não nos perdermos no meio do caminho. Durante todo esse tempo, fiquei remoendo as palavras à procura da maneira perfeita para descrever tudo o que passamos durante esses três anos, principalmente esse ano, mas elas foram insuficientes. Agora sei que crescemos e o nosso modo de agir afeta muito mais quem está ligado a nós do que antes, quando éramos apenas adolescentes.

Foi uma dor terrível ter que despedir de tudo isso, mas desejo que isso aconteça com todo mundo porque é a maneira mais simbólica e honrada de se valorizar as lembranças e as amizades feitas na adolescência. Não posso ser totalmente independente, ter maioridade ou qualquer responsabilidade, mas posso afirmar que terminei uma etapa da minha vida com grande estilo: uma linda festa com as pessoas as quais sempre me lembrarei e sei que daqui a uns vinte anos, olharei para trás e chorarei de saudade de tudo o que passamos juntos.

Se eu continuasse, não caberia em centenas de caracteres o que significam para mim. “Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de vocês.”

Dedico esse texto aos meus queridos amigos do 3º colegial, 9ª turma do colégio Objetivo.

Síndrome de Peter Pan

Nunca entendi o motivo pelo qual Peter Pan não queria crescer, afinal quem não queria sair da casa dos pais e viver pelo mundo? Até que cresci e desde então durmo com a janela aberta torcendo para que alguma criança perdida entre e me leve para a terra do nunca só para contar histórias. Pois tudo está errado e percebi quando senti a necessidade de mudar todos os móveis de lugar ou inventar algo qualquer na decoração. Por que meus olhos clamam por mudança e recomeço. Mesmo que a mudança seja mínima quando chegamos no extremo de algo tudo que precisamos é de um detalhe que mude toda a rotina.

Quando você muda, tudo muda, é o que dizem. Porém eu não sou tão fácil assim, preciso que o meu redor mude para que tal mudança ocorra em mim. Recomeçar não é tão fácil como em um jogo, se você perde na vida, você cai e fica perdido, geralmente demora para encontrar o botão de recomeçar, às vezes ele fica escondido dentro de nós e quase sempre é o ultimo lugar que olhamos, pois há medo.

Medo de perceber que nada ao redor precisa mudar, que tudo que está errado está dentro de nós e que ninguém pode apertar esse botão além de nós mesmos. Não há placas ou cartas que lhe dizem o que o futuro lhe reserva, que caminho seguir ou móvel mudar, nada mais assustador né? Nessa transição, tal momento da vida me vejo com a síndrome do Peter Pan, logo sei o que precisa mudar, preciso aceitar que estou crescendo e que a vida precisa continuar. Aprender que existem meninos perdidos sem terra do nunca e não há lugar para mais um, ou cresce ou cresce.

Indecisa como sempre fui nunca desejei tanto outra opção e por falta dela crescer é o único caminho, ainda não sei como farei e que direção escolherei porém sei que não posso parar, que a vida não espera. Peter Pan foi e voltou, a Wendy cresceu e não o esperou, o tempo voa e não voamos com ele. Ou segue em frente ou nem voltar consegue mais.

 

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